Vai e
vem
Estava parado no trânsito.
Não tinha pressa. O engarrafamento de quilômetros nem me
incomodava. Quando não estou atrasado, aquele anda-para-anda-para,
acaba me colocando meio em transe. Como se meu carro fosse um vagão
de um imenso trem. Às vezes chego ao destino e nem lembro por
onde passei. Vou trocando as marchas sem pensar, fica tudo automático.
Não reparo nos out-doors, nem ouço as buzinas, meu carro
não tem rádio, todos que coloquei foram roubados. Milhares
de coisas vêm à cabeça, o pensamento vai longe.
De repente começou a garoar e liguei o limpador de para brisa.
Olhando aquelas palhetas indo de um lado para o outro pensei em quantas
coisas na vida, além dos limpadores de pára-brisa,
funcionam num vai e vem.
Por exemplo, o pêndulo do relógio vai e vem. O sino soa
no vai e vem. Dia após dia, o sol vai e vem e a lua também.
Até para fazer neném, rola o melhor dos vai e vem.
A criança nasce e as cólicas
vão e vem. Mais crescidinhas brincam no vai e vem dos balanços.
Quando o pai diz não, o indicador vai e vem e se a criança
desobedece, a mão do papai vai vem na bundinha.
E assim segue a vida.
O sono vai e vem, a fome vai e vem.
Para escovar os dentes convém muito vai vem.
Todos os dias os jovens vão para escola e voltam para casa.
O adulto vai e vem do trabalho. No fim do mês vem o dinheiro,
só que esse mais vai do que vem.
Tem muitas outras coisas que dependem
do vai e vem. Nos esportes, a bola vai e vem. Se o jogador vai para
ataque e não vem para defesa acaba perdendo o jogo. No tênis
e no pingue-pongue é só vai vem. E quem assiste então,
fica com dor no pescoço de tanto que a cabeça vai e vem
de um lado para o outro.
Escola de samba, vai uma vem outra. As datas, vêm e vão
todos os anos. Tem coisas que vão e só voltam no ano que
vem, elas vão e mais cedo ou mais tarde elas vêm.
Os sentimentos vão e vem.
O pensamento vai e vem.
A gente vai envelhecendo e as dores vem e vão, o médico vem e vai. E a memória vai e vem.
Puxa! Como foi mesmo que comecei essa história?
Rogério Martins
