Um dia esse livro sai!

 
 

Só pode ser piada.

Todo mundo tem um amigo que adora contar piadas, não é mesmo. Aposto que você vai lembrar de um. Aquele cara alegre que sempre tem uma anedota nova e muitas velhas para contar. Para eles não tem tempo ruim, estão sempre dispostos a dividir um pouco da sua alegria, mesmo que seja em um velório. Tenho a impressão, que essas pessoas costumam fazer uma seleção das piadas. Separam as boas das ruins, então jogam as boas fora, e só decoram as piores, as mais sem graça e preconceituosas para depois sair contando. Só pode ser! Não tem uma que se salve.

Quem será que cria as piadas? Já reparou que elas nunca têm autores, vão brotando do nada, sempre passando de boca em boca. Até que um dia chegam aos nossos pobres ouvidos. Tá certo é melhor ouvir do que ser surdo.

E tem piada de tudo. Você esta falando de um assunto qualquer e o piadista dá um jeito de encaixar uma piadinha sem graça no meio. Quando ele não lembra de nenhuma dentro do tema, faz uma adaptação, perder a chance jamais. Preferem perder o amigo a perder a piada. E nem ficam vermelhos, com a própria falta de graça. Acredito até, que sentem prazer quando a gente não ri.
Eles sempre têm mais de uma para contar. O repertório é imenso. Daqui para frente vou começar a gargalhar logo no início, quem sabe assim o cara se sente satisfeito e para na primeira.

Geralmente começam assim:
- Você sabe aquela.... Quando o cara fala, você sabe aquela... já me dá um frio na espinha. O que você sabe é que vem mais uma piada sem a mínima graça. Eu prefiro dizer que não sei. Mesmo porque se disser que já sei aquela, ele vai ter outra para contar. Quem sabe por ser a primeira será menos pior!
Fico sem jeito, não quero magoar, no fundo o contador de piadas é boa pessoa. Ele só quer agradar. Para ficar na boa eu espero a piada acabar e dou uma risadinha amarela na esperança que pare por ali. Mas o piadista sempre continua.

E quando tem uma rodinha de pessoas. Tudo mundo dá um jeito de cair fora. O cara chega e todo mundo sai. O último a sair é que se ferra. Esses amigos malas são o que se pode chamar de gangorra. Quando o cara senta todo mundo se levanta. Eu já tive vários amigos assim. Tinha um que anotava as anedotas em um maldito papelzinho para não esquecer nada. Andava sempre com o papelzinho na carteira. Quando ele puxava a carteira nunca era para pagar a conta. Lá vinha mais uma piadinha. Outro era especialista em piadas de racismo. O que eu considero um horror. E tinha um que gostava das de português, fazia o sotaque e até punha uma caneta na orelha para se caracterizar. Pior ainda, e o engraçadinho que conta sempre a mesma piada. Esse é um pé no saco. O figura fica repetindo a graça até alguém rir. E depois você encontra com ele e o que acontece: conta a mesma de novo.

O meu piadista atual e o Arraes. Ele tem a pachorra de ligar no celular para contar piada, com o passar do tempo os amigos do Arraes passaram a não atender mais o celular, então ele descobriu um jeito de seu número não aparecer no visor nas suas ligações. Vê se pode uma coisa dessas! Claro que agora, quando tem uma ligação e não aparece o número todos já sabem que é o Arraes. Ele é um cara do interior, o sotaque caipira até ajuda um pouco na graça. Só que ele liga sempre nas horas mais inadequadas possíveis. Deve ser o fuso horário. Descobri que agora tem fuso horário de Americana para São Paulo.

Antigamente esses amigos invadiam nossa paciência e a gente não tinha como evitá-los. Mas agora, com internet e o celular, evidentemente que a coisa ficou bem pior.
Pelo menos antes a gente encontrava com o amigão engraçado de vez em quando. Numa festa, no corredor do escritório ou no clube. E tudo se limitava a esses encontros. Só que agora não tem como escapar, nosso e-mail fica recheado das tais piadinhas. Você vai abrir seu e-mail e vê trinta mensagens não lidas, logo pensa - que legal um monte de e-mail para mim - Na hora que carrega, mais da metade é de piadas. Minha irmã pegou essa mania, acho que é contagioso, ela nunca foi de contar piadas. Eu já pedi para ela parar, mas ela não consegue. Peço para não mandar essas besteiras e ela dá um tempo, passa uma semana e recomeçam os envios. Acho que esta viciada mesmo. Talvez esteja acontecendo uma epidemia.
A internet possibilitou que até os mais tímidos colocassem suas veias homoristicas para fora. Quanto a nós, que ainda estamos imunes, só resta deletar os e-mails e manter o sorriso amarelo.

Rogério Martins


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