Um dia esse livro sai!

 
 

Que estupidez

Todo mundo já fez alguma estupidez e já foi estúpido com alguém algum dia. Quem nunca cometeu uma grosseria? Eu já, e muitas. O pior é que nessas situações geralmente estou errado. Quando tenho esse tipo de atitude sinto um misto de arrependimento e vergonha.
Certa vez, ao sair de uma churrascaria, pedi meu carro para o manobrista.
Ele disse.
- Preciso do crachá de entrada.
Respondi, que ele não tinha entregue nenhum crachá na entrada.
E ele.
- Nós entregamos crachá para todos os carros que entram. Sem exceção.
- Mas pra mim você não entregou. Respondi.
- Entreguei sim eu sempre entrego. Falou
Já irritado eu disse.
- Você não esta entendendo o que eu falei. Para mim você não entregou, olha o que eu estou falando.
N ã o e n t r e g o u. Entendeu agora.
- Eu tenho certeza que entreguei. Respondeu.
Virei para minha amiga e perguntei.
- Ele entregou para você.
Ela.
- Não! Para mim não.
Mais estúpido ainda, falei.
- Esta vendo foi o que eu disse. Não entregou!
O manobrista.
- Sem crachá não posso pegar o carro. Mais uma vez digo que tenho certeza que entreguei.

Quando já estava pronto para bater nele, minha amiga lembrou que o crachá estava com ela.

Pedi desculpas e entreguei o crachá sem ao menos levantar a cabeça, entrei quieto no carro e nunca mais voltei na quela churrascaria. Que vergonha!

Além de ser um dos meus melhores amigos, Nanu é o cara mais estúpido que eu conheci. Sua estupidez é uma arte. Ele não é um grosso qualquer, faz a coisa com uma certa classe e com requintes de sadismo. Uma técnica invejável. Coisa que eu nunca consegui e também não é para qualquer um. Seu carisma esta calcado na estupidez. Para se ter uma idéia, seu maior, e acho que, único ídolo foi o ator Groucho Max. Que era um grosso muito inteligente. Ele deveria se chamar Grosso Max.

Em um restaurante chique de São Paulo, jantando com a esposa, um dos garçons se posiciona ao lado da mesa de Nanu e começa a flambar um prato. O Nanu chama o garçom e pergunta fleumático.
- Esse é o prato que eu pedi?
O garçom respondeu que não.
- Minha esposa pediu esse prato? Continuou
- Não senhor, esse é daquele senhor, da mesa ali adiante. Ai ele disse.
- Então vai flambar essa merda nas costas do cara que pediu.
A coitada da esposa não sabia onde enfiar a cara. Era o restaurante inteiro olhando para eles. Realmente ele sabe a hora certa de ser desbocado. Ele tem o "time" perfeito.

Em outra ocasião em uma pizzaria. Ele pergunta para a esposa.
- Que sabor vai querer.
Ela respondeu.
- Qualquer um, você é quem sabe.
Uma resposta comum, toda mulher fala isso. Mas para o Nanu o caldo já engrossa.
- Pode pedir três sabores, escolhe um. Falou.
- Sei lá benhê, qualquer coisa. Escolhe você.
Para encurtar, vejam só. Ele pediu meia alho meia aliche, dois sabores que ela detesta. Qualquer um detesta. Ela se levantou e foi embora largando ele sozinho na mesa. Bem feito!

E quando um cara bateu no carro do Nanu, desceram já discutindo. E o cara quis ser estúpido, xiiiii...logo com quem. Com um Lord da estupidez.
- Você sabe com quem esta falando. Começou o cara.
Hum! Pra quê! Nanu respondeu de pronto.
- Sei! Com o imbecil que bateu no meu carro.
A gargalhada foi geral entre as pessoas que se aglomeravam para ver a discussão.

Nanu sempre foi assim um gentleman às avessas. Ele nunca cumprimenta as pessoas. Se alguém lhe estende a mão, ele faz que não vê. Perguntar a opinião dele nem pensar.Vai tomar uma cacetada na certa. Bater nele ninguém iria, pançudo com barba e cabelos brancos parece um Papai Noel. Não dá para bater no Papai Noel.
Quem não o conhece direito o odeia, mas ele é boa gente, apenas tem a língua afiadíssima é seu jeito diferente de chamar a atenção. É o tal do tolerância zero.

Depois de anos de amizade comigo, várias discussões e com muita insistência minha, aos poucos, Nanu tem mudado, passando a ser mais gentil. Começou a cumprimentar as pessoas, economizar nos palavrões, a fazer gentilezas e a ter rompantes de educação. Enfim se tornou uma pessoa mas gentil e às vezes até solícita.
O que acabou descaracterizando o completamente. Nanu nunca mais foi o mesmo. É como se tivesse perdido o carisma.
O que eu fui fazer? Nossos amigos passaram a reclamar, me acusando de ter criado um monstro das gentilezas.
As mesmas pessoas que nunca foram cumprimentadas por ele, que ouviram os mais diversos desaforos, agora se voltaram contra mim. Querem de volta o velho Nanu chato e rabugento. Passaram a me criticar, dizendo que a culpa é toda minha. Que eu estraguei ele. Olha só!
Realmente eu cometi um erro. Foi estupidez minha querer que o Nanu deixasse de ser estúpido. Aquele amigo escrachado e respondão foi perdendo sua graça.
Perdemos o nosso Groucho Max tupiniquim.

Rogério Martins


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