Um dia esse livro sai!

 
 

Medo

Não existe uma só pessoa que não sinta algum medo. Vai de grandes medos como o pavor até os medinhos corriqueiros. O grau de medosidade vai de cada um. O que para uma pessoa não passa de um receio, para outra pode ser um baita medão. Essas coisas muitas vezes nos colocam em situações engraçadas e fazem a gente passar vergonha.
Os medinhos são aqueles que podemos superar com facilidade. Coisas banais do dia a dia. A gente o sente e logo em seguida o superamos. Através do auto controle conseguimos dominar a situação com facilidade e seguimos em frente. Já os medos maiores nos perturbam, ainda que não tenham a mínima possibilidade de acontecer nós sentimos aquele frio na espinha. Eu conheço um senhor chamado Ferreirinha que é assim, ele morre de medo de avião, nunca entrou em um e diz que nem vai. A possibilidade ou o simples fato de pensar no assunto já faz com que suas pernas tremam. Portanto ele não gosta nem de falar sobre isso. Já vi o Ferrerinha ganhar uma passagem de avião em um sorteio e não aceitar, trocou pelo segundo prêmio que era uma caixa de bombons. Também com tantas notícias de acidentes aéreos dá até para entender. Melhor viajar de carro comendo os bombons.

Veja como funciona diferente para cada pessoa. Minha mãe adora aviões, viaja na boa, até prefere. Contanto que não precise pegar um elevador no aeroporto. Ela tem pavor de elevadores. Quando fomos mudar de nosso sobradinho para um apartamento, a única exigência dela foi que ficasse ao máximo no terceiro andar. Quando me casei fui morar no décimo quinto andar. Coitada da mamãe, subiu de escada algumas vezes. Convenhamos quinze andares nem bombeiro aquenta. Acompanhada de alguém ela até encara um elevador, mas se nele tiver janelinha. A janelinha é muito importante por que ela pode ver os andares passando. Com janelinha até vai, sem janelinha nem pensar. Só que, não tem janelinha em nenhum elevador moderno, janelinha é coisa do passado. Primeiro os elevadores tinham aquelas portas de sanfona, eram as portas pantográficas. Para não ocupar muito espaço o ascensorista que geralmente era uma pessoa pequenininha, tinha um trabalho danado para abrir e fechar aquela coisa. Agora com essas portas modernas ficou muito mais fácil para o ascensorista por isso mesmo não precisam mais de ascensorista. No trabalho dela tem uma câmera no elevador. O porteiro avisa - pode subir dona Olga eu fico olhando a senhora pelo vídeo - mas não adianta desacompanhada ela não vai. Uns anos atrás ela foi a um vidente fazer regressão às vidas passadas. A guru disse que em uma das tais outras vidas ela teria morrido trancada e sozinha em uma masmorra. Era a explicação que ela precisava para justificar o medo. Pode até ser, mas se foi, era uma masmorra com janelinha.

Vexame é ter medo de bichinhos como as formigas e mosquitos. Tem gente que tem medo até de abelha, isso é ridículo, e olha que nem precisa ser um enxame.
O inseto que mais assusta as mulheres são as baratas. Elas correm, batem as asas e esperneiam, estou falando das duas, das baratas e das mulheres, chegam até a chorar, nesse caso só as mulheres.

Eu realmente não entendo, é muito fácil se livrar de uma barata, um simples pisão e pronto, fim do monstro perigoso. E barata nem morde. Esta certo, ela é casca grossa, mas uma boa sapatada resolve. Para não ficar só no sexo feminino vou contar de um amigo que tem medo de borboleta. Não ele não é gay. Parece que foi trauma de infância. Depois que descobrimos o medo dele a gente passou a pintar umas borboletas no papel, amarrava linha de pesca e ia assustá-lo. Tinha borboletão, borboletinha e mariposa. Fazíamos sempre a mesma coisa e ele se assustava todas às vezes. Não conseguia ver que eram de papel. Com o tempo a gente foi avacalhando nos desenhos para ver se ele se tocava. Que nada o medo é que aumentava. Esse era o caso de pavor onde a pessoa nem consegue raciocinar.

Eu tenho vários medos, o mais ridículo também é de um bichinho pequeno, de lagartixa. Minha justificativa é a seguinte, na barata você pode pisar mas na lagartixa não dá. Primeiro porque elas ficam na parede ou no teto, segundo porque elas são horrendas, aquela coisa branca grudada fica olhando para gente. Você não vê uma barata olhando nos seus olhos. Como posso matar um bicho que esta me olhando. E mais! Lagartixa não é inseto, nem sei o que é mas também não importa, é feia do mesmo jeito. E tem ainda aquele rabinho que se solta. Ela larga o rabinho e ele fica lá se mexendo sozinho. Até para descrever me da asco, estou com a mão dura. O medo tem o incrível poder de paralisar a pessoa acometida por ele. Eu fico quase sem respirar. Certa vez em um sítio, e sitio é o ambiente perfeito para esses bichos asquerosos, eu estava lá deitadão na cama quando de repente aparece uma lagartixa na parede, tive a impressão que ela já estava ali a minha espreita a um tempão e eu só tinha notado naquele momento. Me senti com a privacidade invadida. Ela era grande e toda rajada, olha não sei o que é pior, aquelas branquelas ou essa que era rajada, logo pensei: é uma lagartixa tigre. O bicho era criado e sarado, meu desespero foi tanto que nem sei direito o tamanho dela, só sei que era muito grande. Para mim era como se tivesse um tigre de verdade dentro do quarto. Com muito sacrifício consegui rastejar até a porta para pedir ajuda. Passei vergonha mas naquele quarto eu não dormi mais. Por isso gosto de apartamento em grandes prédios. Você pode ficar preso no elevador e sem janelinha, mas dificilmente aparece alguma lagartixa.

Rogério Martins

hits.