Um dia esse livro sai!

 
 

Finalmente fui assaltado

Nas rodinhas de amigos, sempre surgem assuntos diversos e para cada tema alguém sempre tem uma história pessoal para contar. Tipo assim! Se o assunto é acidente de moto, todos contam sobre seus acidentes, no caso da pessoa não ter tido um, pelo menos algum conhecido já teve. Doença grave na família. É a mesma coisa, todo mundo tem um "causo" para contar. E não são apenas coisas ruins, todos tem uma história de viagem ou de quando era pequeno, histórias de namoro ou de casamento.
Hoje em dia, um assunto que não pode faltar nas rodas é a violência, sobre esse tema todo mundo tem uma história. Pode ser assalto, roubo ou coisa parecida. É praticamente impossível encontrar algum morador de cidade grande que não tenha sido vitima de violência. Mas esse alguém existe e sou eu. Esta certo, que eu sempre tomei muitos cuidados, não ando de carro com o vidro aberto, não fico dando bandeira, tomo minhas precauções. Quero deixar claro que eu nunca quis ser assaltado, aliás ninguém quer. Só que ultimamente esse assunto tomou conta nas tais rodinhas de amigos, eu estava ficando deslocado, todo mundo com o seu drama pessoal eu nada. Até já comprei carro importado e nem assim tive esse azar. Isso começou a me preocupar, deveria haver algo de errado comigo. Amigo assaltado eu tenho vários e muitos já foram mais de uma vez, tenho amigo assaltado a mão armada, roubado na loja, um com cartão de crédito clonado, outro que levou uns tiros, que graças a Deus pegou só no carro e até tem um que foi seqüestrado. Esse é o mais chique. O que me leva a concluir que meus amigos são mais importantes e bem sucedidos do que eu. Eles são os preferidos dos bandidos. É verdade que hoje em dia não é mais tão chique ser seqüestrado, pois estão seqüestrando até cachorro. Mas puxa! Nem trombadinha estava me querendo. Será que tenho cara de mal, estaria botando medo na bandidagem. Não, sinceramente acho que não é isso. Devo ter é cara de pobre mesmo. O ladrão olha para mim, analisa e diz: - Esse cara num tem grana vamu pega o cara do carro de traz - Realmente deve existir pessoas bem mais interessantes do que eu para serem assaltadas. Pensei que estava fadado a nunca participar de uma rodinha com o tema assalto?

Mas finalmente chegou minha vez. Um dia, estava eu com o carro parado no farol vermelho e veio um moleque direto na minha janela, imaginei mil coisas, seria um seqüestro relâmpago, ele diria mãos ao alto é um assalto ou mandaria eu descer do carro para roubá-lo. Que nada! O cara só bateu com o revolver no vidro, e disse - abre logo - eu abri, claro e ele falou - dá a carteira - eu dei, ele abriu-a pegou o dinheiro de dentro, jogou ela no chão e saiu correndo. Eu fiquei lá parado, de boca aberta. Pasmado.

Depois de tanto tempo, meu assalto foi só isso? Essa porcaria de coisa mixuruca. E o pior, fiquei pensando, aquele revolver tava meio esquisito, acho até que era de plástico. Quer dizer, além de ser assaltado por um pivete ainda por cima com revolver de plástico. E ele nem levou minha carteira. Seria péssimo ficar sem a carteira, mas pelo menos eu poderia reclamar das dificuldades de tirar documentos novos. Minha carteira de identidade é a mesma desde os quatorze anos, acho que sou o único cara que nunca pediu segunda via dos documentos. Sempre que mostro a identidade está lá, aquela foto de bebe Johnson. Conclusão, minha carreira de vitima é que foi relâmpago.

Esse meu assalto foi uma vergonha. Não tenho nada para contar para os meus colegas? No próximo bate-papo, quando entrarmos no assunto assalto falarei o que? Continuo sem nada interessante para dizer! Talvez tentar mudar de assunto na hora, propor falar de coisas mais alto astral, quem sabe não dá certo. Contar a verdade, nesse caso nem pensar. De vez de ser mais uma pobre vítima seria motivo de chacota. Pelo menos se tivessem uns dólares na carteira, mas só tinha nota de um real.

Mas enfim, cheguei à conclusão que seria melhor não ter assunto do que ter um mal assunto. De qualquer forma eu me assustei e não gostei nada da experiência. Violência não é brincadeira. Com certeza não quero passar por isso novamente, é muito traumático.
É isso, tive uma idéia!
Quando surgir o assunto assalto falarei sobre o meu trauma, não vou precisar entrar em detalhes sobre o assalto. Direi que fiquei tão traumatizado que nem lembro direito como aconteceu, nem sei quantos eram, estavam armados até os dentes. Tá bom, era um mas só o bafo de dente podre já era uma arma mortífera, certamente pensarão que foi horrível. Todo mundo vai morrer de dó de mim. Agora sim poderei me sentir integrante da sociedade, com uma boa história de violência para contar, um verdadeiro cidadão. Meio mentiroso mas muito traumatizado.

Rogério Martins

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