Um dia esse livro sai!

 
 

De goleiro a artilheiro

Torcer por um time de futebol é uma coisa apaixonante, mas ao mesmo tempo tola. Paixão é assim mesmo a gente fica bobo. Mas daí a ficar assistindo os debates de futebol, as chamadas mesas redondas, já é demais. É a coisa mais sem nexo que existe na TV. Discute-se quanto cada jogador ganha, como se a gente é que fosse pagar o salário deles, ou se viesse algunzinho para o nosso bolso. Tanta discussão e a gente não ganha nada com isso. O pau quebra na hora de analisar se aquele pênalti aconteceu. Legítimo ou não ninguém vai mudar o resultado do jogo. Então para que discutir. O incrível é que dá audiência. Eu mesmo não perco, sempre assisto, e nem sei por que. Já me disseram que a graça do futebol está em ficar discutindo. Por isso a FIFA não aprova monitores de TV para os juizes. Se não houvesse discussão não haveria mesa redonda.
E eleição em clube de futebol! Você já votou alguma vez para presidente do clube que torce? Conhece alguém que votou? Então para que assistir a mais essa discusão.

Aprendemos de criança a torcer por um clube. É a necessidade de fazer parte de uma turma. E ai carregamos esse carma para o resto da vida. Quando o nosso time ganha no domingo, comemoramos até a segunda, mas quando o time perde tiram sarro da gente a semana inteira. Apaixonante não é mesmo.

Eu acho que o melhor seria torcer por um jogador e não para o clube, não importando que time ele jogue. Veja como são as coisas. O cara esta no Corinthians e os São Paulinos o odeiam, ai ele vai pro São Paulo e os São Paulinos o endeusam. Então ele joga mal e chamam ele de corinthiano e voltam a odiar. O caso do Romário por exemplo: jogava no Flamengo e era o ídolo do time, depois foi pro Vasco e os Flamenguistas passaram a não gostar dele, então foi para o Fluminense, e os torcedores do Flu que até então o xingavam agora dizem que ele é a tábua de salvação do time. Eu torço pro Romário não importa que time ele esteja jogando, se ele for para o Ibis, vou torcer pelo Ibis.

Já reparam todo jogador quando joga contra o seu ex- clube acaba fazendo gol. Até o Galeano passou a fazer gol no Palmeiras. Dá pra imaginar! Vê se pode. Eu detesto quando tem ex-jogador em campo. O cara sempre vai marcar algum gol, nem que for no último minuto, sei que eles fazem de propósito. Depois não marcam em mais ninguém. Não deveria existir ex-jogador do clube. O atleta entraria para um clube e ficaria nele a vida toda. Ai sim daria para torcer. Na verdade as pessoas torcem pela camisa. E tem time que inventa camisa nova para comemorar alguma coisa velha e claro sempre perde ou empata nesse jogo.

O artilheiro é um cara incrível. O time sabe que aquele é o artilheiro e ainda assim toma gol dele. Deixando ele mais artilheiro ainda. Deveria ficar todo mundo marcando o artilheiro. Ele vai fazer gol! Por isso chamam ele de artilheiro. Sempre tem um momento que esquecem do artilheiro, e ai pimba, gol do artilheiro.
- Mas não sabiam que ele era artilheiro?
- Não leram os jornais? Não assistiram o tal do debate semana passada?
- Para que serve as mesas redondas?
- Nunca ouviram falar dele, como foram esquecer?
Melhor seria esquecer do sagüeiro ou do goleiro. Qual o nome do goleiro? Não importa o importante é o artilheiro. Não que os goleiros sejam menos importantes, claro, mas o goleiro não precisa ser marcado. Embora tenha atacante cabveça de Bagle que insiste em marcá-los.

Eu nunca fui bom de bola. Sempre soube o que fazer, mas minhas pernas nunca me obedeceram. Mesmo assim fui jogar futebol de salão no time do trabalho. Me convidaram e pensei que seria uma boa, para me entrosar mais com os colegas, já que era novo na empresa. Na hora de distribuir as camisas... adivinha! Colocaram-me no gol. Até achei legal aquela camisa de manga comprida e com almofadas. Quem sabe defenderia um pênalti e sairia carregado em triunfo. Entrei em quadra e fiquei em posição. Assim com os joelhos flexionados e o corpo meio curvado para frente. O juiz apitou o início da partida. O atacante adversário roubou a bola e veio driblando a minha defesa. Logo pensei. O cara é que rouba a bola e eu que entrei numa roubada. Ele ficou cara a cara comigo e só o que dava pra fazer era sair de carrinho nele. Pra que? Ô idéia besta! Não é que o desgraçado chutou a bola nas minhas bolas. A bola não entrou no gol mas as minhas entraram. Naquele momento descobri porque dizem que a gente vê estrelinha, pois eu vi a constelação inteira. E ainda bati o cox na quadra dura. Não fiquei nem 10 segundos em quadra. Como tinha previsto sai carregado em triunfo. Pensando por que as almofadas da camisa de goleiro não ficavam no calção.

Passado o trauma, alguns anos depois, resolvi me dar mais uma chance e aceitei outro convite para jogar uma pelada com uns amigos. Dessa vez seria em um campo de futebol, logo imaginei aquele campo lindo, grama verdinha e fofa. Dessa vez seria bem melhor. Só fui na condição de não ser o goleiro. Até comprei uma chuteira. Para não dar bandeira dei uma sujadinha nela. Chegando lá descobri que o time adversário tinha o sugestivo nome de Boi Malhado. E que nunca havia perdido jogando em casa. O campo era de terra batida, cheio de pedregulhos, e ficava ao lado de um cemitério. Quando o primeiro tempo acabou eu já estava acabado também. Não consegui ver a cor da bola. De cair nos pedregulhos meus joelhos estavam em carne viva. Numa canela levei tanta bicuda que ela virou um tobogã. Minha língua parecia uma gravata. A única água disponível era de um garrafão que já tinha passado pela boca da "boiada inteira". Descansei um pouco, engoli seco e voltei para o segundo tempo. Lá pelas tantas conseguimos um escanteio. Como sou alto, 1.85m, fui correndo para área. Quando a bola veio pulei. Ao mesmo tempo pulou dois armários da defesa do Boi Malhado e mais o goleiro que saiu de soco gritando:- É minha, é minha! Só deu tempo de eu fechar os olhos. A trombada fez levantar defunto do cemitério para ver o que tinha acontecido. Quando acordei no pronto socorro dei graças a deus de não terem me enterrado por lá mesmo. Contaram-me que a bola tinha entrado. Pelo menos dessa vez tinha sido no gol.
Parece que os caras do Boi Malhado não tinham ficado muito contentes em ter levado um gol. Mas como eu já estava em estado deplorável deixaram que me levassem embora. Acreditavam que eu não sobreviveria mesmo. Para minha sorte o Boi virou o jogo, perdemos e eu não perdi os amigos. Tudo acabou bem, minha chuteira nova esta guardada até hoje, mas nunca mais me convidaram para uma pelada. Graças a Deus!

Rogério Martins

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