Um dia esse livro sai!

 
 

Bate-papo com o dentista

Entre todas as diferenças entre os seres humanos e os animais, a principal e a capacidade de linguagem. Através dela nos desenvolvemos criamos civilizações e evoluímos constantemente. Criamos diversas línguas e escritas.
Até mesmo os deficientes auditivos podem se comunicar por meio da linguagem dos sinais. Cursos de aprimoramento da capacidade de se expressar fazem grande sucesso hoje em dia. Nesses cursos os alunos aprendem a se expressar melhor, a falar em público, sendo mais claros ao explicarem suas idéias. Além disso, os avanços tecnológicos nos ajudam na comunicação. Já temos a internet, celulares, walk-talks, até a impressora em Braile já foi inventada.
Existem pessoas meio caladas e outras mais eloqüentes, mas todas se comunicam de alguma forma. Eu por exemplo sou bastante falador, gosto de conversar, bater um bom papo, escrever e trocar idéias. Acredito que conversando a gente enriquece nosso vocabulário, aprende coisas novas e também fica sabendo das fofocas. Só que mesmo com todos os avanços e novidades tecnológicas ainda não inventaram uma maneira da gente se comunicar com os dentistas.
Se não bastasse o algodão, o sugador, motorzinho, broca e o medo. Os dentistas também adoram conversar e fazer perguntas para a gente ficar tentando responder, aumentando o nosso sofrimento. Minha dentista por exemplo, é uma falante de primeira. Fico em uma situação difícil, é só ela me mandar abrir a boca para começar a falar sem parar. Eu lá com a boca escancarada cheia de dentes esperando uma hora passar. E como essa uma hora demora.
Ela começa falando...
- Tudo bem com você?
E eu.
- Hããã
- Sentiu alguma dor?
- Hããã
- E a família esta bem?
- Hããã
- Você tem usado fio dental? Lançaram um fio novo, você quer experimentar?
- Hããã
- Você não tirou a radiografia que eu pedi!
- Hããã
- Não encontrei nenhuma carie. Vou começar a limpeza.
- Hããã
- Esse dente tem muito tártaro, vou dar anestesia, se doer você fala.

Falar como?
Talvez ela fique tão compenetrada que não perceba que não dá para falar. Sentado lá de boca aberta e com a impressão de que aquele sugador vai grudar embaixo da minha língua, fico pensando se ela entende minhas respostas ou se imagina a resposta que quiser. Será que ela faz isso com todo mundo? Quero saber quem é o dentista dela? Ou será que ela nunca foi a um dentista? Tomará que ele fale bastante, será minha vingança.

Não quero ser injusto, sei que ela não é a única. Todos os dentistas que tive na vida sempre falavam sozinhos. Eles devem aprender essa técnica na faculdade de odontologia. Deve ter a cadeira chamada técnicas de monólogo. Onde o aluno aprende como:
· Perguntar sem obter respostas.
· Os significados dos Hããã! Hããã! Hããã!
· E como falar com as paredes.

Se levar bomba nessas matérias não recebe o diploma.
Ou será que eles aprendem a "monologar" com o passar dos anos na profissão.

Felizmente terminei o tratamento, foram horas de sofrimento e bate papos sem nexo. Daqui a seis meses tenho que voltar para fazer um checape. Até lá terei muitas novidades para não contar para ela.

Rogério Martins

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