Um dia esse livro sai!

 
 

A Terra do Faz de conta

Desde pequenos aprendemos a brincar de faz de conta, é uma brincadeira inocente que alimenta a imaginação e a criatividade. Fazemos de conta que somos reis e rainhas. Fazemos de conta que somos heróis, que somos adultos que somos imortais. Fazemos de conta que seremos o que quisermos ser. Essa brincadeira que aprendemos com os pais e professores prepara as crianças para enfrentar as futuras dificuldades da vida. Fantasiar é fundamental para viver. A realidade é dura, mas aprendemos a fazer de conta que o mundo é perfeito e que nada de ruim esta acontecendo.

No caminho da minha casa até o shopping sempre vejo uma velhinha, sentada na calçada, encostada no muro áspero, ela passa o dia esmolando. Pele enrugada, olhar triste e sem vida, nas costas uma manta rasgada, ao lado uma garrafa de refrigerante com um pouco de água. Mão estendida e nenhuma palavra. Não precisa. A sua situação e seu olhar são o bastante para comover qualquer pessoa. Nada precisa ser dito.
Porém, as pessoas passam por ela e nem a notam, é como se ela não existisse.
Algumas vezes a vi deitada dormindo, ali no mesmo lugar, simplesmente tombada para o lado, as pernas na mesma posição como se ela continuasse sentada. Torta, caída, esquecida, sem vida, sem ninguém e nada para apoiar sua cabeça, que descansa no chão sujo.
Não respeitamos nossos idosos.

No cruzamento logo a frente, três crianças fazem malabarismo com bolinhas de tênis. Uma é tão pequena que sua mãozinha mal consegue segurar a bola. Ela apenas troca a bola de mão e em seguida a estende para a janela do carro parado a sua frente. É apenas uma janela, ele só vê seu próprio reflexo. O sinal abre e o carro se move. Ela volta para calçada e ri para as outras crianças, fazendo de conta que tudo esta bem.
Não respeitamos nossas crianças.

Todos ficaram indignados com a tragédia na escola russa. Coisa horrível feita por pessoas sem nenhum escrúpulo. Crianças sofreram e outras morreram. E todo mundo viu. Mas aqui no nosso país, nas nossas cidades nas nossas ruas, na esquina de nossas casas, crianças morrem e ninguém vê. Ou faz de conta que não.

Vivemos em um país do faz de conta. Fazemos de conta que as crianças serão o futuro do país , fazemos de conta que elas tem futuro e fazemos de conta que o país tem futuro.
Fazemos de conta que temos políticos e eles fazem de conta que vão trabalhar para o povo.
Fazemos de conta que acreditamos nos nossos políticos. Os novos políticos fazem de conta que vão fazer o que esperamos deles e os velhos políticos fazem de conta que fizeram o que esperávamos.
Fazemos de conta que tudo esta bem.
Fazemos de conta que o morro não existe que as favelas são pontos turísticos, que as drogas não estão nas nossas famílias e que nossas famílias não são umas drogas.

Na rua todos fazem de conta que não tem uma velhinha dormindo ao relento, o motorista faz de conta que não tem uma criança com a mão estendida do lado de fora do carro.
Fazemos de conta o tempo todo. Fazemos de conta que o amanhã será melhor e amanhã faremos de conta que ontem foi melhor.

Eu sei que vão fazer de conta que não leram esse texto. E eu vou continuar fazendo de conta que alguém leu e entendeu.

Rogério Martins


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