A Terra do Faz de conta
Desde pequenos aprendemos a brincar
de faz de conta, é uma brincadeira inocente que alimenta a imaginação
e a criatividade. Fazemos de conta que somos reis e rainhas. Fazemos
de conta que somos heróis, que somos adultos que somos imortais.
Fazemos de conta que seremos o que quisermos ser. Essa brincadeira que
aprendemos com os pais e professores prepara as crianças para
enfrentar as futuras dificuldades da vida. Fantasiar é fundamental
para viver. A realidade é dura, mas aprendemos a fazer de conta
que o mundo é perfeito e que nada de ruim esta acontecendo.
No caminho da minha casa até
o shopping sempre vejo uma velhinha, sentada na calçada, encostada
no muro áspero, ela passa o dia esmolando. Pele enrugada, olhar
triste e sem vida, nas costas uma manta rasgada, ao lado uma garrafa
de refrigerante com um pouco de água. Mão estendida e
nenhuma palavra. Não precisa. A sua situação e
seu olhar são o bastante para comover qualquer pessoa. Nada precisa
ser dito.
Porém, as pessoas passam por ela e nem a notam, é como
se ela não existisse.
Algumas vezes a vi deitada dormindo, ali no mesmo lugar, simplesmente
tombada para o lado, as pernas na mesma posição como se
ela continuasse sentada. Torta, caída, esquecida, sem vida, sem
ninguém e nada para apoiar sua cabeça, que descansa no
chão sujo.
Não respeitamos nossos idosos.
No cruzamento logo a frente, três
crianças fazem malabarismo com bolinhas de tênis. Uma é
tão pequena que sua mãozinha mal consegue segurar a bola.
Ela apenas troca a bola de mão e em seguida a estende para a
janela do carro parado a sua frente. É apenas uma janela, ele
só vê seu próprio reflexo. O sinal abre e o carro
se move. Ela volta para calçada e ri para as outras crianças,
fazendo de conta que tudo esta bem.
Não respeitamos nossas crianças.
Todos ficaram indignados com a tragédia
na escola russa. Coisa horrível feita por pessoas sem nenhum
escrúpulo. Crianças sofreram e outras morreram. E todo
mundo viu. Mas aqui no nosso país, nas nossas cidades nas nossas
ruas, na esquina de nossas casas, crianças morrem e ninguém
vê. Ou faz de conta que não.
Vivemos em um país do faz
de conta. Fazemos de conta que as crianças serão o futuro
do país , fazemos de conta que elas tem futuro e fazemos de conta
que o país tem futuro.
Fazemos de conta que temos políticos e eles fazem de conta que
vão trabalhar para o povo.
Fazemos de conta que acreditamos nos nossos políticos. Os novos
políticos fazem de conta que vão fazer o que esperamos
deles e os velhos políticos fazem de conta que fizeram o que
esperávamos.
Fazemos de conta que tudo esta bem.
Fazemos de conta que o morro não existe que as favelas são
pontos turísticos, que as drogas não estão nas
nossas famílias e que nossas famílias não são
umas drogas.
Na rua todos fazem de conta que
não tem uma velhinha dormindo ao relento, o motorista faz de
conta que não tem uma criança com a mão estendida
do lado de fora do carro.
Fazemos de conta o tempo todo. Fazemos de conta que o amanhã
será melhor e amanhã faremos de conta que ontem foi melhor.
Eu sei que vão fazer de conta
que não leram esse texto. E eu vou continuar fazendo de conta
que alguém leu e entendeu.
Rogério Martins
